Roteiros de Vida
UM HOMEM
Era magro e brilhava
Os movimentos eram rápidos
Angustiados
Talvez tivesse contas pra pagar
Ou tivesse fome,
não sei .
Tinha relógio,
que naquele corpo seco
parecia o luxo.
Era tão comum que passaria despercebido
Se não fosse a aflição
de peixe fora d’agua.
***
DONA ANSIEDADE
D. Ansiedade toma xícara de café
devora bolachinhas de tempo
que custam tanto a dissolver na boca
D. Ansiedade tem uma fome imensa
- de tudo
e de si mesma.
***
COMPETIÇÃO
O teu pé atrapalha
o meu
Minha boca espreme de batom
a tua camisa
Na saída das barcas
apinhados nos trens
Estamos todos aí:
como quem disputa um sonho
num ossinho de galinha.
***
HÓSTIA
Aproveitei que estava
Cortando cebola
dei pra chorar por tudo
A faca implacável
separando rodelas
que se dividiam, dividiam
A mãe, o pai, o avô
A casa, o que se perdeu
e o quase
No jantar ninguém notou
mas comeu
carne temperada
com cebola e lagrima.
Texto selecionado para composição do espetáculo “O ultimo bolero”, direção Mário Vianna – Casa de Cultura Laura Alvim – Ipanema – RJ – 1996.
***
PROMOÇÃO
Eu te vendi meu sonho
em suaves prestações
Você levou
E ele te foi inútil
Largado num canto
Elefante branco
quase morto.
***
Perda dói
Como qualquer outra dor
sem remédio ou alarde
Sentimento de roupa esfregada
torcida
e batida
três vezes no tangue.
***
Ás
Fico pasma
com a tua desenvoltura
em embaralhar as cartas
as palavras
e fazer canastras quase
limpas
Minhas mãos cheias de planos
Jogos faltando cartas
chaves.
***
EQUILIBRISTAS
Amanhã pode ser tarde demais
Ontem naufragou num mar
de ânsias e rancores
Sobra sempre o hoje
que de tão pequeno
mal nos cabe
O fino arame
sob os pés
A acrobacia sem rede
O passo de artista.




2 comentários:
Os poemas que vc postou aqui, extraídos de "Roteiros de Vida" se acham entre os melhores que já li. "Promoção", sobretudo, é brilhante. De uma ironia, sutileza, dramaticidade e beleza singulares. Parabéns. Ricardo Alfaya.
Querida amiga e Poetisa, li seus poemas e algumas resenhas, são brilhantes.
Fraterno Abraço, meigo beijo
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