Ângela e Antônio




Foi um zumbido no ouvido um deslocamento de lente girando em espiral mergulho rasante vertigem cântico aleluia coral de anjos e um silencio descendo em semitons até ao branco, ao branco, à inconsciência,

Zoom,

A volta rápida, o dia em máxima claridade de botão de TV e foi rápido, muito rápido ou durou muito, ma havia uma passagem, um túnel, um desnível e era o ouro lado dessa praça e eu disse – onde?, enquanto atravessava as bolas de sabão.
Tento remontar ponto por ponto aquelas lembranças porque tudo gira e há um ponto x em que se perde o controle e, justo nesse ponto, a chave. Sempre há o ponto, a palavra exata para abrir montanhas e dentro, a revelação, o tesouro. Todas as palavras moram desesperadas no silêncio aflito do mudo. “Por uma palavra minha alma será salva”. Apenas uma. A Chave.
Pontos, nos embaraçados, trama. Este é um oficio da palavra. Talvez elas me salve no ultimo minuto ou silenciem, para sempre. Palavras prensadas, milimetricamente comprimidas. Pior que o grito é seu avesso, eu disse. E não é exagero nem nada, é pura inundação é jorro. E o grito viria de tarde, o dia rebentando vermelho, as cigarras muito urgentes profetizando calor. A tarde caindo em tons suaves, canções, sons de flauta e fosse lírios, flor de campo, tons pasteis. Escurecimento gradual, a noite tombando imensa seu manto escuro, confortador, silêncio. E a manhã viria límpida, lavada, clarins.
Foi um zumbido no ouvido um deslocamento de lente girando em espiral mergulho rasante vertigem cântico aleluia coral de anjos e um silêncio descendo em semitons até ao branco, ao branco.


***


Foi assim que eu dei pra ver anjo. Eles passam, ficam assim distraídos olhando tudo. Engraçado. No outro dia eu estava aqui na cozinha, veio um e sentou muito grave e falou algo sobre universos paralelos, qualquer coisa assim.
Eu aqui atrapalhada com as batatas no espremedor, o feijão no fogo. A panela de pressão apitou, ele levou um susto e desfez-se.
Anjo é tão bonito. São clarificados.
É como se fossem pessoas – viradas pelo avesso – muitas vezes passadas a limpo. É isso.
É como se fossem pessoas, muitas vezes passadas a limpo.




***



E estavam os nossos nomes nas alianças que já perdemos: Ângela e Antônio. Sabe-se lá em que fundo de gaveta, misturadas a antigas contas de luz, recibos, bijuterias, quinquilharias. Cascalhos.



***



A antena de TV me olha cúmplice – arreganhada e sensível, ali do lado pontinho e livros empilhados. As coisas nos seus lugares, as plantas, dispostas em pequenos vasos, travam contato entre si. O ventilador de teto redemoinha a nossa rotina de dias circulares, o mesmo dia, a sala de estar. Mal estar.


***


O amigo diz que está vivo e me olha o rosto.
O amigo vivo está distante e ocupa-se de fatos. Estamos em caminhos opostos, em tempos diferentes. Eu estou só, acendendo candelabros, rememorando fatos, feitos ao daquele dia na estação do metrô. Teu cachecol, teu olhar, tuas mãos nos bolsos. Estava frio aquele dia e a sensação de que era a última vez. Teu corpo tragado por aquele trem velozmente indo, o vazio da estação, o vazio no estômago, o vazio. Quantas vezes falei “a última vez”, “agora chega”.
Você nem liga mais.
Como parecem excessivos esses candelabros agora que a luz voltou. Apago as luzes para vê-los melhor. Luz chamejante e sombras na parede.


***


Vezes te achei frio feito um azulejo. Reparo minha boca entreaberta no embaçado do espelho. Cato coisas nos bolsos: um cigarro, um isqueiro, uma prova sequer. Dei duas voltas na chave e saí. Ainda que tarde, ainda que tarde, adeus.


***


Antônio Antônio sílabas tônicas
sinônimos antônimos sim e
não. Um talvez, ainda – como
se fosse antes ou sempre ou
amanhã. Antônio em tons suaves,
degradê teu retrato
Antigo, atemporal, temporais em mim
em ti e

tempos de estio
calmarias

Um tanto, um tanto quanto – a medida
da tua falta

de medida

Um tonto, tentador
Antônio.

***


Ele tinha, às vezes, um premeditado olhar de mosca esfregando patinhas, e em outras, era um menino ou um ausente, um corpo estranho.

***



Na sessão de cinema vi riscos neons entre os carros indicando movimento e efeitos especiais Spielberg. Pisca-piscas em árvores de natal, presépios.
Bateu fundo uma nostalgia de onde nunca estive. Do outro lado da sala, Antônio me olhava cúmplice. Riso enviesado de “vamos sair daqui”.


***


Um fio suspenso
quase
imperceptível
Assim:
teia de aranha
pra inseto
A armadilha
sutil
trabalhada
cuidadosamente
em ondas telepáticas
Redes jogadas
uns para outros

Sedução.

***

A casa estava acostumada com o som dele
A voz
O tapete, com o seu pé
A fronha, com o seu cheiro
Demorou algum tempo para o mato crescer
e apagar vestígios.

***



Guardei o lenço para lavá-lo e secá-lo no azulejo.
Objetivo mínimo.



***



Era uma reunião de anjos e entre o vão da porta da cozinha, eu escutei:

“O nome de Deus é impronunciável”, disse um
“É parte do Plano”, disse outro
O mais magrinho falou:
“Ela entrou na sintonia e está perdida”

Quando abri a porta disposta a vê-los melhor, só havia algumas baratas dispersas pelo chão e o barulho cadenciado de gotas da torneira da pia.



***


Desatados os laços de família. Piso e caio. Desacatos, desafetos, fetos, afetos. Cato os cacos.

e me corto.



***



O anjo disse:
No dia da anunciação
soarão trombetas
Todas as coisas serão
elas mesmas,
vistas de uma outra maneira

O susto
com copo d’agua / grampo de
cabelo / garrafa
térmica

O susto com teu filho,
com teu pai

Tudo
muntidimensional
clarificado

Tudo com é,
como sempre foi.
Hoje e sempre.




***



Como olhar cara a cara o vazio? Juízo final deve ser assim –
A impossibilidade de virar o rosto. Depois da morte não deve
haver nada, alem da consciência, sem corpo ou adereços.
Vazio: o apartamento depois que saiu a mudança – pior –
Aquele quarto arrumado, como se o domo estivesse vivo.



***

Falei com Antônio sobre os anjos.

- Anjos? Visões?
- Anjos, ora. Já estou acostumada.
Trans / lúcidos. Entram, saem às vezes falam.
- Falam? O que?
- Conversas de anjo. Também já acostumei.

Ele riu e entrou no chuveiro.

***



Eu sei. Não precisava, nem nada daquela sangria desatada
toda. O excesso exposto ao ridículo. Uma bandeira ao vento
Tremulando – pra ninguém.

***



Retiro, Antônio,
delicadamente,
no maior apuro
pinças à mão
o espinho microscópico
do ciúme.

***



As aparências desenganam. Eu tinha olhos ávidos e vi.
Uma fonte: água cristalina e palmeiras. Miragem – na
secura fosforescente de deserto. Eu tinha olhos ávidos e vi.


***


Tomada ligada em algum ponto desconhecido. Ligeiro
choque, irritação, torpor morno de tarde. Temores. A visão
de moscas no açucareiro em dia de insuportável calor. O
corpo pressente tudo. Ratos abandonando o navio. Abalo
sísmico. Alta tensão pré-menstrual.

***

O relógio de Dali escorregando sobre a mesa. Sólido
Transformando em líquido, até a eternidade gasosa. Nebulosa.
Meu corpo e o teu escorregando. Todos os corpos – irreversivelmente –
Escorregando. Tempo.

***

É um anjo-xícara
- uma asa só
de engraçado andar
capenga
Não voa
e nem pisa firme
Metade anjo
Metade gente
com fome, sede e coisas do corpo
Tão bom se perdesse uma coisa
ou outra
Bom, se perdesse a asa
ou que baixasse outro anjo
também de uma asa só
- do lado inverso.


***


meu estômago sente aquele calafrio vago de montanha
russa
o coração dando bandeira descompassado
Mas ele é um rapaz assim, assim
ás vezes assado
outras, nem tanto
quando ele vem
retiro cautelosamente
da bolsa
meu disfarce tático.




***



Ângela na janela silhueta chinesa pára / peitos vertigens
num dia branco. As nuvens tomaram a cidade, Ângela. O céu
caiu e o meu nome é Antônio. Os papéis desarrumados
sobre a mesa. A radio Hora Exata pinga mais um minuto
exato, exatamente sobre nos. Você sabia, Ângela, que o tempo
é uma porta aberta? Eu te reconheci no primeiro dia.
Porque éramos de eras, eras / heras atrás horas antigas, horas
pálidas. Pálidas.

Ângela debruçada no limite concreto parede branca / céu
nublado. Transparências, camisola, meio anjo, gerânios e
jasmins.

***



Certas noites
sou inca-venuziana
prateada
lírica até dizer chega
Sacações 3 x 4, rompeu
Vezes penso assim
que:

Minha janela é mais
um buraco
geométrico
nessa cidade peneira
brilhos repartidos
de espelho quebrado
pára-raios, pára-lamas
fosforescências césio.
Vezes penso:

Não quero mais o vício da paixão.




***



Sim. Não. Um pouco mais pra cá esse sentimento. Aquele
pra lá. Arrumação dos quartos. A poeira. O lençol sacudido.
O ritual. Por favor, abra a janela. O mofo. Quatro paredes,
brancas, exatas. Os armários embutidos e seus fantasmas.
Os corredores e seus caminhos trocados. Descaminhos. Sem
drama. O sol entrando pelas frestas. A persiana faz barulho
quando abre. Manhã. Tarde. Noite. Manhã. Tarde. Noite.
Dias empilhados, esquecidos. Baú. A desarrumação/arrumação
diária. Jogos de montar previsíveis. Tolos. Necessários.
Roupas no varal, todas devidamente misturadas pela máquina
de lavar. O susto de encontrar sob o tapete tantas palavras
não ditas. O banheiro. O espelho e as escovas de dentes.
Próximas, coloridas. A cozinha, seus cheiros, barulhos. Rancores
Ardendo em fogo branco. Sigo os azulejos feito formigas,
o labirinto. As vidas amarradas umas às outras, frágeis,
emaranhadas. Teia de aranha. Os objetos, hábitos, sentimentos,
emaranhados. Manhã. Tarde. Noite. Manhã. Tarde.
Noite. Dias empilhados. Tic. Tac. Tudo tomando nova
forma. Devagar. Comprimindo. Expandindo. A vida, essa
diária – a de doses homeopáticas, regulares – sai pelas frestas
das portas. Inundação. Desce a escada e ganha a rua.
Manhã.




***



Sem mais nem menos
essa lembrança
Tépida
saudade ponte / aguda ponte aérea
ponte rio-niterói ponte safena
poente, sem tirar nem pôr
um milímetro
dessa paisagem equilibrista
em que procuro
com lentes de detetive
e capa
no mapa mundi
entre meridianos e paralelos,
uma pista.




***




Com desânimo, pude constatar que apenas conhecia
Antônio de vista e que ele estava em um nível intermediário,
inacessível para mim. Esgotada, andei pelos corredores acendendo
luzes, as janelas escancaradas e entrei no chuveiro,
a água gelada, o choque, o súbito entendimento de que um
fio, imaginário ou não, estava se rompendo, estava quase,
faltava um mínimo, e que já tinha doido de tudo, mas que
agora seria rápido, quase nada.

(texto selecionado para composição do espetáculo “Ambulâncias na contramão” – Direção: Marcio Vianna – Museu do Catete, RJ – 1997).


***



Tomado pela maior premência, Antônio levantou-se cedo,
Fez a barba demoradamente, beijou minha testa, colocou o
indicador entre os meus olhos e sem uma palavra, atravessou
a janela e partiu.
Um dia todos os anjos se vão. É possível que por essa
inusitadas característica de Antônio, eu nunca o tenha entendido.
Desde o dia do seu desaparecimento, nunca mais vi
Anjos pela casa. Às vezes, quando fico só, coloco disco de
cantos gregorianos e acendo incensos, mas sem nenhum resultado.
Aí é que para andar na rua olhando para o céu, ou
ficar horas à janela. Em outros momentos, desconfio de que
alguém seja anjo e sigo meus suspeitos,a te que se dispersem.
de qualquer modo, é inútil ainda, querer
domesticá-los. Um dia eles vão embora, por algum chamamento
próprio ou alheio.
No dia de sua ida, abri os armários, corri pela casa em
busca de pistas, as gavetas, o chinelo, o pijama. Todos os objetivos
haviam desaparecido. Eram miragens?
De qualquer modo, é inútil querer entender o anjo.










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