POETA. ACHO, DE VERDADE, QUE A GENTE NASCE ASSIM.






Esses são textos dos meus 3 livros:"Fio de Prumo", Ed. 7Letras, 2006;


"Ângela e Antônio" - Ed. Blocos, 1992 e


"Roteiros de Vida" - Ed. Achiamé, 1991.


Este blog é para apresentar o meu trabalho e para conhecer outras


pessoas que gostem de poesia.


Um abraço,


Maria Helena Latini



É COM ALEGRIA E GRANDE SATISFAÇÃO QUE COMUNICO:






TERMINEI O LIVRO EM PROSA!!!






Sim, ela terminou de escrever o livro e iniciou uma fase maravilhosa em sua trilha poética!


Este estado reflete-se em seu olhar, postura e atitudes. Nas linhas do papel as palavras são traçadas fielmente ao estado interior. Uma escritora talentosa que abre suas páginas para vida.





Um Brinde Maria Helena Latini!






E tem novidades pela frente... Aguardem as próximas postagens.





PS: Nos reencontramos no Centro de Niterói, mas precisamente nas barcas, depois de muitos brindes compartilhados e estamos aqui nesta nova parceria, "a qual nem imaginávamos". Eu como jornalista assessorando a escritora e como cabeça do Um Brinde à Poesia estimulando sempre.





Saudações!!! Paz! Graças a Deus! Brilha Luz!





Lucília Dowslley











CONVITES




Fio de Prumo


Motivo

Tudo que eu escreva nos diários, nunca chegará perto do
impresso nas paredes da casa, mas a casa é muda, tem a
aflição dos mudos. É preciso que eu relate, mesmo pelas
beiras, um pouco desse sumo pisoteado pelo tempo, pelas
gerações. É muita vida contida, represada em cada centímetro.
Escrever é uma necessidade, uma emergência.


***

Casa

A casa é hoje, densa memória. Começava pelos umbrais –
madeira firme. Antigamente, todas as madeiras eram firmes
e escuras. Solidez. Austeros, os móveis – os costumes
- mãe – pai – respeito – medo – assombração. Os lençóis
muito brancos – cheiro bom – a reza – as sombras na
parede. A mesa de jantar, o retrato do pai na cabeceira. A
voz do pai. A presença. O alimento. O pão de cada dia.

“Só Esso dá ao seu carro
o máximo
“Só Esso dá ao seu carro
o máximo
“Só Esso dá ao seu carro
o máximo
Veja o que Esso faz”


Repórter Esso – as notícias mastigadas, o tempo era lento e
De repente, um sobressalto: “E ATENÇÃO ...ATENÇÃO!”

A voz do locutor, os acontecimentos do dia, o tigre do
comercial – o animal correndo no deserto, movendo a
sua força e, de repente – close – parava imponente, estanque,
absoluto. A sua cara de bicho, a seda de seu pêlo, a
tela, a TV, a sala de jantar, tudo circulava ali, naquela sala,
entre as cadeiras, entre nós. O tempo escorrendo nas paredes,
entranhando na nossa pele, nos nossos dias, em tudo
que dizíamos e mais ainda, em tudo que retínhamos, por
medo ou por costume.



***



Além do muro

Varanda orvalhada de manhã
E o muro
O que ficava atrás do muro?
Imaginava...
Veio uma trepadeira do outro lado,
Atravessou fronteira. Nômade.

“Mãe, eu quero atravessar fronteira
quero voar muito
conhecer mundo”.

Eu sonhei... Estava voando para longe dos muros da casa.
Eu continuava subindo, sem cair, sem ter medo. E depois,
o vôo rasante sobre a cidade deserta e a alegria.
A alegria.



***


Escrita

Eu sonhei: estava voando para longe dos muros da casa.
Eu continuava subindo, sem cair, sem ter medo. E depois,
o vôo rasante sobre a cidade deserta e a alegria. A
alegria. O sonho é uma invenção da mente. Escrever pode
ser, então, uma invenção da vida. Acrobacias do imaginário,
saltos ornamentais, minha malha branca e fitas na
ginástica solo.

Há outros ofícios, mas escrever é diferente. É calar e falar
ao mesmo tempo. É uma espiral infinita nas duas pontas.
Entre um infinito e outro, estou eu, com um dos braços
revolvendo terra, lodo, raiz – e com o outro, tento alcançar
o que me foge sempre, sem que ao menos, saiba o que é.



***



Seringueira

O tempo era lento,
resina
no lento atalhar de marcas
corte e seiva
faca dores
risos cheiro
no lento gotejar
de cada dia.



***


Genealogia

O tempo se embrenhou
em raízes
na terra úmida
húmus e gens
desconhecida escuridão
numa dança
de rodopios lentos
de trama, tranças,
caracteres, traços, gestos,
jeitos, rostos, gostos,
elos e ecos
avôs – vôs – vôs
avós – vós – vós – vós
vozes e vozes
no burburinho inaudível
de estranhas entranhas.
Passado longínquo.



***




Reverde

O tempo reverdeceu no novo
rompendo vida
ciclos, séculos
embrião verde, tenro fruto
abrigou estações
chuvas, estios e
engendrou sementes, seivas, sumos,
folhas, viço e flor.

O tempo fez soar seus sinos
alvoroçou passarinhos
céu azul, pura luz
fotossíntese, esperança
e apontou suas setas
para longe, longe,
trans-cen-dên-cia
desconhecido salto
no amanhã, manhã.
Broto novo.



***



Puxando pelo fio da memória

Des
fi
o
mais uma vez
reminiscências
imprecisas
traços esquecidos
traços
à sombra da memória
uma porta lacrada
sete chaves
durepox
tortura chinesa
pingos,
,
,
pingos
bate-estca
no
mesmo
ponto
.




***




Marcado

Escrevo para dizer o que passou
E o que não passa.

Não passa.



***



Artesã

Escrever é escondido, jardim secreto.

A arte é tentar alcançar, traduzir o que não tem forma,
nem tamanho.




***




Fugidio

O tempo,
sempre pela tangente,
escapa
e corre para sempre,
escorre
para sempre.



***



Quando o abstrato é mais sólido

Tijolo fica estranhando de lembrança, esse material resistente
ao tempo e as intempéries. resiste a casa, intacta,
com seu modo, com seus cômodos. As suas portas abertas
para vôos de meninos. Eles retornam para a Terra do Sempre,
para o mesmo ponto, para o mesmo ponto da memória.




***




Hipnótico

Tempo espiral
hipnótico
diz que sim
diz que sim
diz que sim pra mim
deixa eu sonhar domar
tua voracidade de pouco a pouco
de pouco a pouco, de pouco a pouco.




***




Ciranda

O tempo
segue,
Hipnótico espiral
Ciranda
Vozes fatos acontecimentos
Aquela fala, “parece que foi ontem”
Aquela imagem nítida,
memória
Roda viva, História,
historias,
tramas, trançadas linhas,
emaranhados.

Ciranda
Hipnótico espiral
Tua mão,
Outra mão,
Perda-ganho
Contramão



***





Roda constante
Rodamoinho
Rodopio
Gente gestos rostos
Casas achados perdidos
Perdidos rostos
Fotos cores lembranças
Cadernos ternura canções
Endereços mapas viagens
Presentes surpresas cinema
Partos dores espasmos
Alegria novelos paixão
Anéis documentos papeis
Bailes vestidos perfume
Danças promessas encontros
Desencontros mágoas
Ritmo riso rascunhos
Cartas carimbos datas
Livros discos sonhos
Bichos afagos afetos
Rasuras poesias bobagens.

Rodamoinho, roda
Rodopio.




***




Gotas


O tempo era lento,
resina
no lento talhar de marcas
corte e seiva
faca dores
risos cheiro
no lento gotejar
de cada dia.

O tempo era lento,
resina
no lento talhar de marcas
corte e seiva
faca dores
risos cheiro
no lento gotejar
de cada dia.

O tempo era lento,
resina
no lento talhar de marcas
corte e seiva
faca dores
risos cheiro
no lento gotejar
de cada dia.

Dia
Dia
Dia.



***




M.M.C.

O tempo, antagonicamente tão vasto e tão fugidio,
Compassos matemáticos, infinitos, incontáveis:
o mínimo
o múltiplo
e o comum.



***



Represa

Sonos reprimidos e o que se guarda com a força de um
segredo, tudo desemboca em represa – alguma coisa ele
vada à segunda, terceira, quarta potências: a compressão
de uma mola.




***




Leitura


Linhas escritas:
fios de alta-tensão,
repouso de passarinho.




***



Repentino

O sonho
o baque
a brevidade

o relâmpago assustador
entre isso
e aquilo.

***


Palavras sólidas

Cedo amei as palavras, inclusive as endurecidas – modernas,
Antigas, antiqüíssimas, supersônicas. Palavras de bronze,
Mármore, granito, maçaranduba, jacarandá. Palavras
Fortes, palavras...




***




Sina e Sinal

A grande espiral do tempo
marcada no homem
em sua digital,
ponto
intimo
e
único
entre
o Sempre
e o
só.




***





Teia

Emissão de sinais
código cifrado
entrelinhas
olhares
Imperceptíveis teias
e
visgo:

Crime premeditado
de aranha.



***





?

um ponto de interrogação se parece com um bicho
enrodilhado, feto-bebezinho, uma barriga grávida, um
cajado. Um fio de cabelo, uma orelha e seu brinco, o
Continente Africano, a América do Sul. A Bahia, o mapa do
Brasil, a solidão sinuosa da metade de um coração. Uma
curva de caminho – e sua pedra – (ai, sempre uma pedra...),

um viajante e sua mochila.

Um ponto de interrogação interroga-se a si mesmo.
Solitário, reflexivamente arqueado.
O Pensador de Rodin, o homem e seu enigma
que o devora, devora. Devora.


***

Exercício

Exercitar a disciplina
na cadencia constante
aborrecida
de um martelar.
A saturação
o cansaço
atrás
da destreza de acrobata
e leveza
de bailarina.

***

Disciplina

Disciplina,
fio de prumo:
Duro percurso
de repetir
na paciência
de relojoeiro
com ajustes
suor
rigor
certeiro olhar
alvo e dardo
na busca constante
da precisão
ponto exato.

***



Esquadro

Precisei aparar as arestas com lâmina afiada para tornar
Minha emoção seca, dura, um ponto, um jato, uma batida
e só. Feito isso, olhei os objetos e chamei-os simplesmente de
“objetos”, esse nome angular. A realidade era
um quadro. E era perfeita, exata, como são exatos os
quadrados.
Cansei de ser excessiva. Agora eu quero o equilíbrio-zen, a
sobriedade exígua de uma reta. Quero ser me-ti-cu-lo-samente
japonesa. Nem mais, nem menos. O neutro.

***


Escaldante

Andei o dia todo, os pés latejando no sapato. Tudo o que
Eu queria: banho e guaraná natural – tudo gelado. Solamente
uma vez nada mais. Tarde de vermelhidão assombrada:
um dia antes do dilúvio. O mormaço desce
Inteiro, a orquestra sinfônica das cigarras começou cedo.
O calor emite uma nota continua. Aguda.

***



Interurbano

Ana ligou de Portugal. Voz em off: parecia estar na
esquina. Ela ria e falava de romance/certo búlgaro/saudade
enviesada/equações numéricas (quanto deve ser essa
ligação? – o tempo...) estiver em Sintra/sem sinais daquele
outro homem/pequenos contratempos/até breve, lembrancas –

então ta, um beijo.


Não era um postal, mas a imaterialidade da voz da Ana

escorrendo
por um dos fios
condutores
da memória.

***



Tom das Águas

Chuva estrondosa sobre o Rio de janeiro, são as águas de
março, são as águas de março. Enxurrada, rio caudaloso
das paixões turbulentas, águas turvas, pau e pedra, ribanceira.
Fim de romance e estação. Antes, um beijo – na
boca- os caminhos são todos enviesados, todos enviesados,
nossas linhas cruzadas, perdidas agora para sempre. É a
vida, outros rumos, são as águas de março, as águas torrenciais,

devastadoras.

Profética, tenho a visão de um arco-íris e um campo
verdejante. Lívida, imantada, desço as escadas solenemente
e ofereço milho aos pombos.

***


Folha de não-me-toques

É uma dor horizontal.
Uma lamina.
Fria, cortante
fio de navalha.
Soturnamente,
Sensitiva por vias tortas,
recolho-me ao mínimo toque.

***



Íntimo

Dor escondida
roendo:
coisa incisa
e pouca
feito uma frieira no pé,
no dedo mínimo.

***


Retorno ao prumo

Nada a dizer. O lado masoquista, mais uma vez, tende aos
jogos de azar, amores kamicases, ciladas. Ar viciado do
salão de jogos. Não há porquê oferecer crisântemos. Sem
chances, passo minha vez.

***


Cortante

Pa-la-vra
Vra-vra-vra
Era vidro mastigado puro
Doía. Ainda dói quando lembro.
Amor ferido sangrando
Solidão. Escuro. Quietude.
E aquele frio
O corte
A cicatriz
Di-la-ce-ra-ção.
Fragmentos
Palavras vras-vras-vras
Vidro moído.

***


Sucata para fazer pipa

As palavras trituradas em vidro
colei-as uma a uma
E do gume de estiletes
aprontei fina envergadura
de cruz e sustentação

para o meu papel de seda.

***


Fuga

Talvez haja uma saída:
- a de emergência
a escada em caracol para um pátio,
espaço aberto.
As minhas pernas em correria,
Os meus braços abertos, asas.
Asas, asas, azulão
Asas pra que te quero
Quero-quero
Bem-Te-Vi.

***

Traição

É o fim do caminho
De um caminho
Entre tantos
É o afeto que se encerra
Em meu peito juvenil
E dias e dias de
Morto – vivo
Vivo – morto
Vivo!
O que sobrou – ainda
Foi uma entalada na garganta
Feito uma espinha de peixe

Feito uma espinha de peixe

É preciso correr o rio
É preciso o tempo passar
É preciso o rio passar

O tempo.

***



Via Crucis


Traíra, emboscada, bote de cobra
Tua língua bipartida
A dor de punhal,
O veneno.

O aquário quebrado,
Peixes em desatino,
O redemoinho,
A tormenta.

E depois o tempo,
O alento, a cura
E a fosforescência.
Aleluia.

***



Visão

Pela lente do meu ciúme, eu vejo: numa virada de capa de
vampiro – aqueles dois corpos trepidantes em sugação e
visgo. Como quem afugenta um bicho, afasto a cena –
que retorna e retorna e amplia-se em imagens de Polaróide,
consumação e tortura.

***


Girassóis

Depois do fim, fui para casa e comi três girassóis. Devagar,
feito um crime premeditado, dispondo as pétalas –
escancaradamente amarelas sob a farinha amarga de grãos, tudo
regado a molho shoyo.

Lembrei Van Gogh e seus girassóis, girassóis.
Gira só.

***



A Semana

Domingo

Hoje, a mesma data para todos. Intermitente, no relógio digital, a hora H, o dia D, a hora H, o dia D. Domingo-Família, enorme e vago cai com o seu peso sobre a tarde. O céu é uma tela branquíssima, iluminada, de cinema. Vento frio. Tédio em três movimentos: iniciação, prelúdio e fuga.

Segunda

Pensei que podíamos marcar um encontro. Que tal na Cecília Meirelles às seis?
Pássaros dispersos voltando ao mesmo ponto. Ao mesmo ponto?

Terça

Está tudo no ar. Deixa ficar assim-os passarinhos. Revoada de pardais, concerto dominical, Cinelândia. Castro Alves regendo pombos, ballet de mãos, dulcíssima suavidad. Tudo é muito claro, Vivaldi. As quatro estações, o romance.

Quarta

Retrocessos. O lado “dançando na chuva” se acalma. É preciso dormir e esquecer, melhor procurar atalhos. Um ...dois...três minutos – tempo.

Quinta

Eu queria dizer; “Não, já não sinto mais pelos lados”. Retorno ao prumo, faço cálculos, contabilizo prós e contras. Entre um ponto e outro, tangencial, à deriva, escrevo um diário – pura mentira colorida. Balas soft. É poesia impressa em decadry.
Adereços.

Sexta

O vento assobia e percorre as ruas. Sem lua, não há gatos, somente luzes frias atrás de janelas fechadas. Medo infantil subindo a espinha, a escada. Desabalada, tenho câimbras e saudades. “saudades fúteis, saudades frágeis, meros papéis”, ecoa remotamente a voz do Chico na memória. Dormência.

Sábado

Concerto para flauta, violino e fagote. Intensa claridade. La Claridad. De novo, os passarinhos, os passarinhos.
Eu sonhei: estava voando para longe dos muros da casa e depois o vôo rasante sobre a deserta e a alegria. A alegria.

***



Conversa de Sherazade

Deixa eu falar nos labirintos do teu ouvido, palavras:
volúpia, gardênia, resedá.

Sei tantas palavras, tantas. Posso te falar uma a uma, cada
noite: vertigem, volume, vales, versos...

Mantenho-me viva com a força das palavras que direi –
secretas, seda pura, sete véus.

***



Ofertório

Trago lírios para o domingo
Ouro, incenso e mirra
Tudo escrito, Senhor
são palavras.
Tive dois retratos de infância – que perdi
A minha carne é fraca
O meu sangue é pisado
Tenho lembranças que vão e retornam
Vão e retornam – feitos pombos
O que ofereço trago aqui:
palavras,
dom.

***



Historinha

Uma depois da outra,
palavra vira linha

Puxada de um grande tecido,
palavra é desfeita
e retecida

Vida é fio
Fio é linha
Fios que a gente escreve
(e suas entrelinhas).

***


Brincadeira Meireles, Quintana

O tempo passa,
Passa,
Passa.

Eu fui triste, um dia
Alegre, poeta, Cecília
E o tempo ainda gira
Nos ponteiros do relógio.

Passa, passa
Passarinho
Voa, ao, gavião
Passaraio, Passaraio,
Deixa eu passar.

***



Cura

Águas passadas se movem em redemoinho:
Magoas

Eu procuro a cura
e
águas novas.

***



Alegrinho

Acordei feliz, rindo à toa
É passarinho verde, são passarinho
É chuva no sertão. Chuvarada.

***



Cantares

Palavras doces, belíssimas, intimo deleite. Balsamo. Fiquei repetindo
Cantartes: “ Sus-ten-tai-me com-pas-sas, con-for-tai-me com
maçãs, pois des-fa-le-ço de amor, sus-ten-tei-me com pas-sas,
con-for-tai-me com maçãs...” Isso me amoleceu de enternecimento.

Levíssima, cantei cantiga nova – de acordar.

Pedras preciosas, esmeraldas, turmalinas, dizei no meu ouvi
do, assim, num sopro. Palavras boas, purificadoras, água limpa,

limpa, limpa. Fonte.

“Sustentai-me com passas, confortai-me com maças, pois desfaleço de amor”
Cantares, 2 vs 5

***


Requinte

Eu quero a elegância
da palavra “aspargo”
e uma mesa ornada
lírios brancos
hastes túrgidas
candelabros
linho fino.

***



Jóia

No meu acervo de lembranças, guardo feito jóia, uma frase
dita por uma moça...
(a moça... trazida de Minas para trabalhar em casa alheia,
deparava-se pela primeira vez com o mar).
E ela disse:

- “Que im-pos-si-bi-li-da-de !..”

assim, com duas palavras ela expôs o seu assombro, a sua
perplexidade. Ah, “que impossibilidade”, estendo os meus
braços em êxtase e já posso ter o que dizer diante do infinito –

e diante de Deus, feito a moça de Minas, feito a
moça cuja lembrança guardo feito jóia, suas duas palavras,

dois dedais – um contendo o mar e o outro o seu
espanto. Espanto.

***


Achados e perdidos

O antes, o sempre e o nunca mais, tudo guardado na
Memória...
Memória – espelho de Alice, o outro lado, reflexo e
Refluxo de tempo.

***


Tênue linha reta

Procuro
no esforço
o eixo
de equilíbrio
Transparente
essencial
de
um
Fio de Prumo

***



Contas e pedras

Faz quanto tempo...?
São lembranças. Ah, são contas de uma caixinha
de música. Uma bailarina leve, em rosa, estende um branco
e tem o outro em arco, os pés em ponta. Soa uma
música, ela gira sobre um eixo e há um espelho – de Alice?
Faz quanto tempo?
Contas coloridas, às vezes pedras, ásperas e pontiagudas.
No entanto, estão lá, inevitavelmente.
Passado: mofo e jasmim. Subterrâneos, silêncios, encantos,

portas lacradas, sete chaves, jardins secretos, casas,
cheiros. Uma fruta suculenta plena em sua polpa. É de
uma amarelo ouro, fulgurante, e ainda há fiapos e depois
semente.
Faz quanto tempo?

Fragmentes do texto “Além do muro”

Eu sonhei: estava voando pra longe dos muros da casa.
Eu continuava subindo, sem cair, sem ter medo. E de
Pois. O vôo rasante sobre a cidade deserta e a alegria.
A alegria








Ângela e Antônio




Foi um zumbido no ouvido um deslocamento de lente girando em espiral mergulho rasante vertigem cântico aleluia coral de anjos e um silencio descendo em semitons até ao branco, ao branco, à inconsciência,

Zoom,

A volta rápida, o dia em máxima claridade de botão de TV e foi rápido, muito rápido ou durou muito, ma havia uma passagem, um túnel, um desnível e era o ouro lado dessa praça e eu disse – onde?, enquanto atravessava as bolas de sabão.
Tento remontar ponto por ponto aquelas lembranças porque tudo gira e há um ponto x em que se perde o controle e, justo nesse ponto, a chave. Sempre há o ponto, a palavra exata para abrir montanhas e dentro, a revelação, o tesouro. Todas as palavras moram desesperadas no silêncio aflito do mudo. “Por uma palavra minha alma será salva”. Apenas uma. A Chave.
Pontos, nos embaraçados, trama. Este é um oficio da palavra. Talvez elas me salve no ultimo minuto ou silenciem, para sempre. Palavras prensadas, milimetricamente comprimidas. Pior que o grito é seu avesso, eu disse. E não é exagero nem nada, é pura inundação é jorro. E o grito viria de tarde, o dia rebentando vermelho, as cigarras muito urgentes profetizando calor. A tarde caindo em tons suaves, canções, sons de flauta e fosse lírios, flor de campo, tons pasteis. Escurecimento gradual, a noite tombando imensa seu manto escuro, confortador, silêncio. E a manhã viria límpida, lavada, clarins.
Foi um zumbido no ouvido um deslocamento de lente girando em espiral mergulho rasante vertigem cântico aleluia coral de anjos e um silêncio descendo em semitons até ao branco, ao branco.


***


Foi assim que eu dei pra ver anjo. Eles passam, ficam assim distraídos olhando tudo. Engraçado. No outro dia eu estava aqui na cozinha, veio um e sentou muito grave e falou algo sobre universos paralelos, qualquer coisa assim.
Eu aqui atrapalhada com as batatas no espremedor, o feijão no fogo. A panela de pressão apitou, ele levou um susto e desfez-se.
Anjo é tão bonito. São clarificados.
É como se fossem pessoas – viradas pelo avesso – muitas vezes passadas a limpo. É isso.
É como se fossem pessoas, muitas vezes passadas a limpo.




***



E estavam os nossos nomes nas alianças que já perdemos: Ângela e Antônio. Sabe-se lá em que fundo de gaveta, misturadas a antigas contas de luz, recibos, bijuterias, quinquilharias. Cascalhos.



***



A antena de TV me olha cúmplice – arreganhada e sensível, ali do lado pontinho e livros empilhados. As coisas nos seus lugares, as plantas, dispostas em pequenos vasos, travam contato entre si. O ventilador de teto redemoinha a nossa rotina de dias circulares, o mesmo dia, a sala de estar. Mal estar.


***


O amigo diz que está vivo e me olha o rosto.
O amigo vivo está distante e ocupa-se de fatos. Estamos em caminhos opostos, em tempos diferentes. Eu estou só, acendendo candelabros, rememorando fatos, feitos ao daquele dia na estação do metrô. Teu cachecol, teu olhar, tuas mãos nos bolsos. Estava frio aquele dia e a sensação de que era a última vez. Teu corpo tragado por aquele trem velozmente indo, o vazio da estação, o vazio no estômago, o vazio. Quantas vezes falei “a última vez”, “agora chega”.
Você nem liga mais.
Como parecem excessivos esses candelabros agora que a luz voltou. Apago as luzes para vê-los melhor. Luz chamejante e sombras na parede.


***


Vezes te achei frio feito um azulejo. Reparo minha boca entreaberta no embaçado do espelho. Cato coisas nos bolsos: um cigarro, um isqueiro, uma prova sequer. Dei duas voltas na chave e saí. Ainda que tarde, ainda que tarde, adeus.


***


Antônio Antônio sílabas tônicas
sinônimos antônimos sim e
não. Um talvez, ainda – como
se fosse antes ou sempre ou
amanhã. Antônio em tons suaves,
degradê teu retrato
Antigo, atemporal, temporais em mim
em ti e

tempos de estio
calmarias

Um tanto, um tanto quanto – a medida
da tua falta

de medida

Um tonto, tentador
Antônio.

***


Ele tinha, às vezes, um premeditado olhar de mosca esfregando patinhas, e em outras, era um menino ou um ausente, um corpo estranho.

***



Na sessão de cinema vi riscos neons entre os carros indicando movimento e efeitos especiais Spielberg. Pisca-piscas em árvores de natal, presépios.
Bateu fundo uma nostalgia de onde nunca estive. Do outro lado da sala, Antônio me olhava cúmplice. Riso enviesado de “vamos sair daqui”.


***


Um fio suspenso
quase
imperceptível
Assim:
teia de aranha
pra inseto
A armadilha
sutil
trabalhada
cuidadosamente
em ondas telepáticas
Redes jogadas
uns para outros

Sedução.

***

A casa estava acostumada com o som dele
A voz
O tapete, com o seu pé
A fronha, com o seu cheiro
Demorou algum tempo para o mato crescer
e apagar vestígios.

***



Guardei o lenço para lavá-lo e secá-lo no azulejo.
Objetivo mínimo.



***



Era uma reunião de anjos e entre o vão da porta da cozinha, eu escutei:

“O nome de Deus é impronunciável”, disse um
“É parte do Plano”, disse outro
O mais magrinho falou:
“Ela entrou na sintonia e está perdida”

Quando abri a porta disposta a vê-los melhor, só havia algumas baratas dispersas pelo chão e o barulho cadenciado de gotas da torneira da pia.



***


Desatados os laços de família. Piso e caio. Desacatos, desafetos, fetos, afetos. Cato os cacos.

e me corto.



***



O anjo disse:
No dia da anunciação
soarão trombetas
Todas as coisas serão
elas mesmas,
vistas de uma outra maneira

O susto
com copo d’agua / grampo de
cabelo / garrafa
térmica

O susto com teu filho,
com teu pai

Tudo
muntidimensional
clarificado

Tudo com é,
como sempre foi.
Hoje e sempre.




***



Como olhar cara a cara o vazio? Juízo final deve ser assim –
A impossibilidade de virar o rosto. Depois da morte não deve
haver nada, alem da consciência, sem corpo ou adereços.
Vazio: o apartamento depois que saiu a mudança – pior –
Aquele quarto arrumado, como se o domo estivesse vivo.



***

Falei com Antônio sobre os anjos.

- Anjos? Visões?
- Anjos, ora. Já estou acostumada.
Trans / lúcidos. Entram, saem às vezes falam.
- Falam? O que?
- Conversas de anjo. Também já acostumei.

Ele riu e entrou no chuveiro.

***



Eu sei. Não precisava, nem nada daquela sangria desatada
toda. O excesso exposto ao ridículo. Uma bandeira ao vento
Tremulando – pra ninguém.

***



Retiro, Antônio,
delicadamente,
no maior apuro
pinças à mão
o espinho microscópico
do ciúme.

***



As aparências desenganam. Eu tinha olhos ávidos e vi.
Uma fonte: água cristalina e palmeiras. Miragem – na
secura fosforescente de deserto. Eu tinha olhos ávidos e vi.


***


Tomada ligada em algum ponto desconhecido. Ligeiro
choque, irritação, torpor morno de tarde. Temores. A visão
de moscas no açucareiro em dia de insuportável calor. O
corpo pressente tudo. Ratos abandonando o navio. Abalo
sísmico. Alta tensão pré-menstrual.

***

O relógio de Dali escorregando sobre a mesa. Sólido
Transformando em líquido, até a eternidade gasosa. Nebulosa.
Meu corpo e o teu escorregando. Todos os corpos – irreversivelmente –
Escorregando. Tempo.

***

É um anjo-xícara
- uma asa só
de engraçado andar
capenga
Não voa
e nem pisa firme
Metade anjo
Metade gente
com fome, sede e coisas do corpo
Tão bom se perdesse uma coisa
ou outra
Bom, se perdesse a asa
ou que baixasse outro anjo
também de uma asa só
- do lado inverso.


***


meu estômago sente aquele calafrio vago de montanha
russa
o coração dando bandeira descompassado
Mas ele é um rapaz assim, assim
ás vezes assado
outras, nem tanto
quando ele vem
retiro cautelosamente
da bolsa
meu disfarce tático.




***



Ângela na janela silhueta chinesa pára / peitos vertigens
num dia branco. As nuvens tomaram a cidade, Ângela. O céu
caiu e o meu nome é Antônio. Os papéis desarrumados
sobre a mesa. A radio Hora Exata pinga mais um minuto
exato, exatamente sobre nos. Você sabia, Ângela, que o tempo
é uma porta aberta? Eu te reconheci no primeiro dia.
Porque éramos de eras, eras / heras atrás horas antigas, horas
pálidas. Pálidas.

Ângela debruçada no limite concreto parede branca / céu
nublado. Transparências, camisola, meio anjo, gerânios e
jasmins.

***



Certas noites
sou inca-venuziana
prateada
lírica até dizer chega
Sacações 3 x 4, rompeu
Vezes penso assim
que:

Minha janela é mais
um buraco
geométrico
nessa cidade peneira
brilhos repartidos
de espelho quebrado
pára-raios, pára-lamas
fosforescências césio.
Vezes penso:

Não quero mais o vício da paixão.




***



Sim. Não. Um pouco mais pra cá esse sentimento. Aquele
pra lá. Arrumação dos quartos. A poeira. O lençol sacudido.
O ritual. Por favor, abra a janela. O mofo. Quatro paredes,
brancas, exatas. Os armários embutidos e seus fantasmas.
Os corredores e seus caminhos trocados. Descaminhos. Sem
drama. O sol entrando pelas frestas. A persiana faz barulho
quando abre. Manhã. Tarde. Noite. Manhã. Tarde. Noite.
Dias empilhados, esquecidos. Baú. A desarrumação/arrumação
diária. Jogos de montar previsíveis. Tolos. Necessários.
Roupas no varal, todas devidamente misturadas pela máquina
de lavar. O susto de encontrar sob o tapete tantas palavras
não ditas. O banheiro. O espelho e as escovas de dentes.
Próximas, coloridas. A cozinha, seus cheiros, barulhos. Rancores
Ardendo em fogo branco. Sigo os azulejos feito formigas,
o labirinto. As vidas amarradas umas às outras, frágeis,
emaranhadas. Teia de aranha. Os objetos, hábitos, sentimentos,
emaranhados. Manhã. Tarde. Noite. Manhã. Tarde.
Noite. Dias empilhados. Tic. Tac. Tudo tomando nova
forma. Devagar. Comprimindo. Expandindo. A vida, essa
diária – a de doses homeopáticas, regulares – sai pelas frestas
das portas. Inundação. Desce a escada e ganha a rua.
Manhã.




***



Sem mais nem menos
essa lembrança
Tépida
saudade ponte / aguda ponte aérea
ponte rio-niterói ponte safena
poente, sem tirar nem pôr
um milímetro
dessa paisagem equilibrista
em que procuro
com lentes de detetive
e capa
no mapa mundi
entre meridianos e paralelos,
uma pista.




***




Com desânimo, pude constatar que apenas conhecia
Antônio de vista e que ele estava em um nível intermediário,
inacessível para mim. Esgotada, andei pelos corredores acendendo
luzes, as janelas escancaradas e entrei no chuveiro,
a água gelada, o choque, o súbito entendimento de que um
fio, imaginário ou não, estava se rompendo, estava quase,
faltava um mínimo, e que já tinha doido de tudo, mas que
agora seria rápido, quase nada.

(texto selecionado para composição do espetáculo “Ambulâncias na contramão” – Direção: Marcio Vianna – Museu do Catete, RJ – 1997).


***



Tomado pela maior premência, Antônio levantou-se cedo,
Fez a barba demoradamente, beijou minha testa, colocou o
indicador entre os meus olhos e sem uma palavra, atravessou
a janela e partiu.
Um dia todos os anjos se vão. É possível que por essa
inusitadas característica de Antônio, eu nunca o tenha entendido.
Desde o dia do seu desaparecimento, nunca mais vi
Anjos pela casa. Às vezes, quando fico só, coloco disco de
cantos gregorianos e acendo incensos, mas sem nenhum resultado.
Aí é que para andar na rua olhando para o céu, ou
ficar horas à janela. Em outros momentos, desconfio de que
alguém seja anjo e sigo meus suspeitos,a te que se dispersem.
de qualquer modo, é inútil ainda, querer
domesticá-los. Um dia eles vão embora, por algum chamamento
próprio ou alheio.
No dia de sua ida, abri os armários, corri pela casa em
busca de pistas, as gavetas, o chinelo, o pijama. Todos os objetivos
haviam desaparecido. Eram miragens?
De qualquer modo, é inútil querer entender o anjo.










Roteiros de Vida











UM HOMEM

Era magro e brilhava
Os movimentos eram rápidos
Angustiados
Talvez tivesse contas pra pagar
Ou tivesse fome,
não sei .
Tinha relógio,
que naquele corpo seco
parecia o luxo.
Era tão comum que passaria despercebido
Se não fosse a aflição
de peixe fora d’agua.



***



DONA ANSIEDADE

D. Ansiedade toma xícara de café
devora bolachinhas de tempo
que custam tanto a dissolver na boca
D. Ansiedade tem uma fome imensa
- de tudo
e de si mesma.



***



COMPETIÇÃO

O teu pé atrapalha
o meu
Minha boca espreme de batom
a tua camisa
Na saída das barcas
apinhados nos trens
Estamos todos aí:
como quem disputa um sonho
num ossinho de galinha.


***



HÓSTIA

Aproveitei que estava
Cortando cebola
dei pra chorar por tudo
A faca implacável
separando rodelas
que se dividiam, dividiam
A mãe, o pai, o avô
A casa, o que se perdeu
e o quase
No jantar ninguém notou
mas comeu
carne temperada
com cebola e lagrima.

Texto selecionado para composição do espetáculo “O ultimo bolero”, direção Mário Vianna – Casa de Cultura Laura Alvim – Ipanema – RJ – 1996.



***



PROMOÇÃO

Eu te vendi meu sonho
em suaves prestações
Você levou
E ele te foi inútil
Largado num canto
Elefante branco
quase morto.



***



Perda dói
Como qualquer outra dor
sem remédio ou alarde
Sentimento de roupa esfregada
torcida
e batida
três vezes no tangue.



***




Ás


Fico pasma
com a tua desenvoltura
em embaralhar as cartas
as palavras
e fazer canastras quase
limpas
Minhas mãos cheias de planos
Jogos faltando cartas
chaves.



***



EQUILIBRISTAS


Amanhã pode ser tarde demais
Ontem naufragou num mar
de ânsias e rancores
Sobra sempre o hoje
que de tão pequeno
mal nos cabe
O fino arame
sob os pés
A acrobacia sem rede
O passo de artista.