
CONVITES



Motivo
Tudo que eu escreva nos diários, nunca chegará perto do
impresso nas paredes da casa, mas a casa é muda, tem a
aflição dos mudos. É preciso que eu relate, mesmo pelas
beiras, um pouco desse sumo pisoteado pelo tempo, pelas
gerações. É muita vida contida, represada em cada centímetro.
Escrever é uma necessidade, uma emergência.
***
Casa
A casa é hoje, densa memória. Começava pelos umbrais –
madeira firme. Antigamente, todas as madeiras eram firmes
e escuras. Solidez. Austeros, os móveis – os costumes
- mãe – pai – respeito – medo – assombração. Os lençóis
muito brancos – cheiro bom – a reza – as sombras na
parede. A mesa de jantar, o retrato do pai na cabeceira. A
voz do pai. A presença. O alimento. O pão de cada dia.
“Só Esso dá ao seu carro
o máximo
“Só Esso dá ao seu carro
o máximo
“Só Esso dá ao seu carro
o máximo
Veja o que Esso faz”
Repórter Esso – as notícias mastigadas, o tempo era lento e
De repente, um sobressalto: “E ATENÇÃO ...ATENÇÃO!”
A voz do locutor, os acontecimentos do dia, o tigre do
comercial – o animal correndo no deserto, movendo a
sua força e, de repente – close – parava imponente, estanque,
absoluto. A sua cara de bicho, a seda de seu pêlo, a
tela, a TV, a sala de jantar, tudo circulava ali, naquela sala,
entre as cadeiras, entre nós. O tempo escorrendo nas paredes,
entranhando na nossa pele, nos nossos dias, em tudo
que dizíamos e mais ainda, em tudo que retínhamos, por
medo ou por costume.
***
***
Exercício
Exercitar a disciplina
na cadencia constante
aborrecida
de um martelar.
A saturação
o cansaço
atrás
da destreza de acrobata
e leveza
de bailarina.
***
Disciplina
Disciplina,
fio de prumo:
Duro percurso
de repetir
na paciência
de relojoeiro
com ajustes
suor
rigor
certeiro olhar
alvo e dardo
na busca constante
da precisão
ponto exato.
***
Esquadro
Precisei aparar as arestas com lâmina afiada para tornar
Minha emoção seca, dura, um ponto, um jato, uma batida
e só. Feito isso, olhei os objetos e chamei-os simplesmente de
“objetos”, esse nome angular. A realidade era
um quadro. E era perfeita, exata, como são exatos os
quadrados.
Cansei de ser excessiva. Agora eu quero o equilíbrio-zen, a
sobriedade exígua de uma reta. Quero ser me-ti-cu-lo-samente
japonesa. Nem mais, nem menos. O neutro.
***
Escaldante
Andei o dia todo, os pés latejando no sapato. Tudo o que
Eu queria: banho e guaraná natural – tudo gelado. Solamente
***
Interurbano
Ana ligou de Portugal. Voz em off: parecia estar na
esquina. Ela ria e falava de romance/certo búlgaro/saudade
enviesada/equações numéricas (quanto deve ser essa
ligação? – o tempo...) estiver em Sintra/sem sinais daquele
outro homem/pequenos contratempos/até breve, lembrancas –
então ta, um beijo.
Não era um postal, mas a imaterialidade da voz da Ana
escorrendo
por um dos fios
condutores
da memória.
***
Tom das Águas
Chuva estrondosa sobre o Rio de janeiro, são as águas de
março, são as águas de março. Enxurrada, rio caudaloso
das paixões turbulentas, águas turvas, pau e pedra, ribanceira.
Fim de romance e estação. Antes, um beijo – na
boca- os caminhos são todos enviesados, todos enviesados,
nossas linhas cruzadas, perdidas agora para sempre. É a
vida, outros rumos, são as águas de março, as águas torrenciais,
devastadoras.
Profética, tenho a visão de um arco-íris e um campo
verdejante. Lívida, imantada, desço as escadas solenemente
e ofereço milho aos pombos.
***
Folha de não-me-toques
É uma dor horizontal.
Uma lamina.
Fria, cortante
fio de navalha.
Soturnamente,
Sensitiva por vias tortas,
recolho-me ao mínimo toque.
***
Íntimo
Dor escondida
roendo:
coisa incisa
e pouca
feito uma frieira no pé,
no dedo mínimo.
***
Retorno ao prumo
Nada a dizer. O lado masoquista, mais uma vez, tende aos
jogos de azar, amores kamicases, ciladas. Ar viciado do
salão de jogos. Não há porquê oferecer crisântemos. Sem
chances, passo minha vez.
***
Cortante
Pa-la-vra
Vra-vra-vra
Era vidro mastigado puro
Doía. Ainda dói quando lembro.
Amor ferido sangrando
Solidão. Escuro. Quietude.
E aquele frio
O corte
A cicatriz
Di-la-ce-ra-ção.
Fragmentos
Palavras vras-vras-vras
Vidro moído.
***
Sucata para fazer pipa
As palavras trituradas em vidro
colei-as uma a uma
E do gume de estiletes
aprontei fina envergadura
de cruz e sustentação
para o meu papel de seda.
***
Fuga
Talvez haja uma saída:
- a de emergência
a escada em caracol para um pátio,
espaço aberto.
As minhas pernas em correria,
Os meus braços abertos, asas.
Asas, asas, azulão
Asas pra que te quero
Quero-quero
Bem-Te-Vi.
***
Traição
É o fim do caminho
De um caminho
Entre tantos
É o afeto que se encerra
Em meu peito juvenil
E dias e dias de
Morto – vivo
Vivo – morto
Vivo!
O que sobrou – ainda
Foi uma entalada na garganta
Feito uma espinha de peixe
Feito uma espinha de peixe
É preciso correr o rio
É preciso o tempo passar
É preciso o rio passar
O tempo.
***
Via Crucis
Traíra, emboscada, bote de cobra
Tua língua bipartida
A dor de punhal,
O veneno.
O aquário quebrado,
Peixes em desatino,
O redemoinho,
A tormenta.
E depois o tempo,
O alento, a cura
E a fosforescência.
Aleluia.
***
Visão
Pela lente do meu ciúme, eu vejo: numa virada de capa de
vampiro – aqueles dois corpos trepidantes em sugação e
visgo. Como quem afugenta um bicho, afasto a cena –
que retorna e retorna e amplia-se em imagens de Polaróide,
consumação e tortura.
***
Girassóis
Depois do fim, fui para casa e comi três girassóis. Devagar,
feito um crime premeditado, dispondo as pétalas –
escancaradamente amarelas sob a farinha amarga de grãos, tudo
regado a molho shoyo.
Lembrei Van Gogh e seus girassóis, girassóis.
Gira só.
***
A Semana
Domingo
Hoje, a mesma data para todos. Intermitente, no relógio digital, a hora H, o dia D, a hora H, o dia D. Domingo-Família, enorme e vago cai com o seu peso sobre a tarde. O céu é uma tela branquíssima, iluminada, de cinema. Vento frio. Tédio em três movimentos: iniciação, prelúdio e fuga.
Segunda
Pensei que podíamos marcar um encontro. Que tal na Cecília Meirelles às seis?
Pássaros dispersos voltando ao mesmo ponto. Ao mesmo ponto?
Terça
Está tudo no ar. Deixa ficar assim-os passarinhos. Revoada de pardais, concerto dominical, Cinelândia. Castro Alves regendo pombos, ballet de mãos, dulcíssima suavidad. Tudo é muito claro, Vivaldi. As quatro estações, o romance.
Quarta
Retrocessos. O lado “dançando na chuva” se acalma. É preciso dormir e esquecer, melhor procurar atalhos. Um ...dois...três minutos – tempo.
Quinta
Eu queria dizer; “Não, já não sinto mais pelos lados”. Retorno ao prumo, faço cálculos, contabilizo prós e contras. Entre um ponto e outro, tangencial, à deriva, escrevo um diário – pura mentira colorida. Balas soft. É poesia impressa em decadry.
Adereços.
Sexta
O vento assobia e percorre as ruas. Sem lua, não há gatos, somente luzes frias atrás de janelas fechadas. Medo infantil subindo a espinha, a escada. Desabalada, tenho câimbras e saudades. “saudades fúteis, saudades frágeis, meros papéis”, ecoa remotamente a voz do Chico na memória. Dormência.
Sábado
Concerto para flauta, violino e fagote. Intensa claridade. La Claridad. De novo, os passarinhos, os passarinhos.
Eu sonhei: estava voando para longe dos muros da casa e depois o vôo rasante sobre a deserta e a alegria. A alegria.
***
Conversa de Sherazade
Deixa eu falar nos labirintos do teu ouvido, palavras:
volúpia, gardênia, resedá.
Sei tantas palavras, tantas. Posso te falar uma a uma, cada
noite: vertigem, volume, vales, versos...
Mantenho-me viva com a força das palavras que direi –
secretas, seda pura, sete véus.
***
Ofertório
Trago lírios para o domingo
Ouro, incenso e mirra
Tudo escrito, Senhor
são palavras.
Tive dois retratos de infância – que perdi
A minha carne é fraca
O meu sangue é pisado
Tenho lembranças que vão e retornam
Vão e retornam – feitos pombos
O que ofereço trago aqui:
palavras,
dom.
***
Historinha
Uma depois da outra,
palavra vira linha
Puxada de um grande tecido,
palavra é desfeita
e retecida
Vida é fio
Fio é linha
Fios que a gente escreve
(e suas entrelinhas).
***
Brincadeira Meireles, Quintana
O tempo passa,
Passa,
Passa.
Eu fui triste, um dia
Alegre, poeta, Cecília
E o tempo ainda gira
Nos ponteiros do relógio.
Passa, passa
Passarinho
Voa, ao, gavião
Passaraio, Passaraio,
Deixa eu passar.
***
Cura
Águas passadas se movem em redemoinho:
Magoas
Eu procuro a cura
e
águas novas.
***
Alegrinho
Acordei feliz, rindo à toa
É passarinho verde, são passarinho
É chuva no sertão. Chuvarada.
***
Cantares
Palavras doces, belíssimas, intimo deleite. Balsamo. Fiquei repetindo
Cantartes: “ Sus-ten-tai-me com-pas-sas, con-for-tai-me com
maçãs, pois des-fa-le-ço de amor, sus-ten-tei-me com pas-sas,
con-for-tai-me com maçãs...” Isso me amoleceu de enternecimento.
Levíssima, cantei cantiga nova – de acordar.
Pedras preciosas, esmeraldas, turmalinas, dizei no meu ouvi
do, assim, num sopro. Palavras boas, purificadoras, água limpa,
limpa, limpa. Fonte.
“Sustentai-me com passas, confortai-me com maças, pois desfaleço de amor”
Cantares, 2 vs 5
***
Requinte
Eu quero a elegância
da palavra “aspargo”
e uma mesa ornada
lírios brancos
hastes túrgidas
candelabros
linho fino.
***
Jóia
No meu acervo de lembranças, guardo feito jóia, uma frase
dita por uma moça...
(a moça... trazida de Minas para trabalhar em casa alheia,
deparava-se pela primeira vez com o mar).
E ela disse:
- “Que im-pos-si-bi-li-da-de !..”
assim, com duas palavras ela expôs o seu assombro, a sua
perplexidade. Ah, “que impossibilidade”, estendo os meus
braços em êxtase e já posso ter o que dizer diante do infinito –
e diante de Deus, feito a moça de Minas, feito a
moça cuja lembrança guardo feito jóia, suas duas palavras,
dois dedais – um contendo o mar e o outro o seu
espanto. Espanto.
***
Achados e perdidos
O antes, o sempre e o nunca mais, tudo guardado na
Memória...
Memória – espelho de Alice, o outro lado, reflexo e
Refluxo de tempo.
***
Tênue linha reta
Procuro
no esforço
o eixo
de equilíbrio
Transparente
essencial
de
um
Fio de Prumo
***
Contas e pedras
Faz quanto tempo...?
São lembranças. Ah, são contas de uma caixinha
de música. Uma bailarina leve, em rosa, estende um branco
e tem o outro em arco, os pés em ponta. Soa uma
música, ela gira sobre um eixo e há um espelho – de Alice?
Faz quanto tempo?
Contas coloridas, às vezes pedras, ásperas e pontiagudas.
No entanto, estão lá, inevitavelmente.
Passado: mofo e jasmim. Subterrâneos, silêncios, encantos,
portas lacradas, sete chaves, jardins secretos, casas,
cheiros. Uma fruta suculenta plena em sua polpa. É de
uma amarelo ouro, fulgurante, e ainda há fiapos e depois
semente.
Faz quanto tempo?
Fragmentes do texto “Além do muro”
Eu sonhei: estava voando pra longe dos muros da casa.
Eu continuava subindo, sem cair, sem ter medo. E de
Pois. O vôo rasante sobre a cidade deserta e a alegria.
A alegria

***
***
O amigo diz que está vivo e me olha o rosto.
O amigo vivo está distante e ocupa-se de fatos. Estamos em caminhos opostos, em tempos diferentes. Eu estou só, acendendo candelabros, rememorando fatos, feitos ao daquele dia na estação do metrô. Teu cachecol, teu olhar, tuas mãos nos bolsos. Estava frio aquele dia e a sensação de que era a última vez. Teu corpo tragado por aquele trem velozmente indo, o vazio da estação, o vazio no estômago, o vazio. Quantas vezes falei “a última vez”, “agora chega”.
Você nem liga mais.
Como parecem excessivos esses candelabros agora que a luz voltou. Apago as luzes para vê-los melhor. Luz chamejante e sombras na parede.
***
Vezes te achei frio feito um azulejo. Reparo minha boca entreaberta no embaçado do espelho. Cato coisas nos bolsos: um cigarro, um isqueiro, uma prova sequer. Dei duas voltas na chave e saí. Ainda que tarde, ainda que tarde, adeus.
***
Antônio Antônio sílabas tônicas
sinônimos antônimos sim e
não. Um talvez, ainda – como
se fosse antes ou sempre ou
amanhã. Antônio em tons suaves,
degradê teu retrato
Antigo, atemporal, temporais em mim
em ti e
tempos de estio
calmarias
Um tanto, um tanto quanto – a medida
da tua falta
de medida
Um tonto, tentador
Antônio.
***
Ele tinha, às vezes, um premeditado olhar de mosca esfregando patinhas, e em outras, era um menino ou um ausente, um corpo estranho.
***
Na sessão de cinema vi riscos neons entre os carros indicando movimento e efeitos especiais Spielberg. Pisca-piscas em árvores de natal, presépios.
Bateu fundo uma nostalgia de onde nunca estive. Do outro lado da sala, Antônio me olhava cúmplice. Riso enviesado de “vamos sair daqui”.
***
Um fio suspenso
quase
imperceptível
Assim:
teia de aranha
pra inseto
A armadilha
sutil
trabalhada
cuidadosamente
em ondas telepáticas
Redes jogadas
uns para outros
Sedução.
***
A casa estava acostumada com o som dele
A voz
O tapete, com o seu pé
A fronha, com o seu cheiro
Demorou algum tempo para o mato crescer
e apagar vestígios.
***
Guardei o lenço para lavá-lo e secá-lo no azulejo.
Objetivo mínimo.
***
***
Falei com Antônio sobre os anjos.
- Anjos? Visões?
- Anjos, ora. Já estou acostumada.
Trans / lúcidos. Entram, saem às vezes falam.
- Falam? O que?
- Conversas de anjo. Também já acostumei.
Ele riu e entrou no chuveiro.
***
Eu sei. Não precisava, nem nada daquela sangria desatada
toda. O excesso exposto ao ridículo. Uma bandeira ao vento
Tremulando – pra ninguém.
***
Retiro, Antônio,
delicadamente,
no maior apuro
pinças à mão
o espinho microscópico
do ciúme.
***
Tomada ligada em algum ponto desconhecido. Ligeiro
choque, irritação, torpor morno de tarde. Temores. A visão
de moscas no açucareiro em dia de insuportável calor. O
corpo pressente tudo. Ratos abandonando o navio. Abalo
sísmico. Alta tensão pré-menstrual.
***
O relógio de Dali escorregando sobre a mesa. Sólido
Transformando em líquido, até a eternidade gasosa. Nebulosa.
Meu corpo e o teu escorregando. Todos os corpos – irreversivelmente –
Escorregando. Tempo.
***
É um anjo-xícara
- uma asa só
de engraçado andar
capenga
Não voa
e nem pisa firme
Metade anjo
Metade gente
com fome, sede e coisas do corpo
Tão bom se perdesse uma coisa
ou outra
Bom, se perdesse a asa
ou que baixasse outro anjo
também de uma asa só
- do lado inverso.
***
meu estômago sente aquele calafrio vago de montanha
russa
o coração dando bandeira descompassado
Mas ele é um rapaz assim, assim
ás vezes assado
outras, nem tanto
quando ele vem
retiro cautelosamente
da bolsa
meu disfarce tático.
***
***
***

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